segunda-feira, março 31, 2008

a chuva imóvel

"Já me apalpei e sei que tenho entranhas e não parafusos, nem acredito que a cibernética já tenha chegado a este ponto, com pai e mãe e tudo para despistar, e este pavor sobretudo que só pode vir de mil gerações de mortos: nego-me terminantemente a ser um robô, com este umbigo e, agora, com estas lágrimas. Posso ser um estrangeiro, isto não discuto, um estranho - mas se necessário vomitarei até o estômago para provar que sou humano, ou quase, tanto quanto se pode ser nestes dias trágicos. "

campos de carvalho

Fórceps

Eu queria nascer olhando pro céu.

Minha mãe me pariu de parto normal, mas foi de cara pro chão, como todo mundo. E eu queria nascer olhando pro céu.

Houve algumas dificuldades. Contrações, noite fria em Porto Alegre, carro a álcool, hospital vazio na madrugada... Poucas horas depois eu e minha mãe já lutávamos pra não sermos mais a mesma pessoa – eu pela primeira vez. E naquele momento eu já queria estar de cara com o céu.

Mas o mundo costuma preferir os cabisbaixos. E usa fórceps em quem quer que prefira a dessegurança de ver o chão só com os pés.
Eu nasci a fórceps nesse mundo de fórceps, mas meus olhos não deixam de sentir e preferir o céu.

terça-feira, março 18, 2008


chico buarque

bom conselho

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa

Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar

Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe

Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

sexta-feira, março 07, 2008

vento...e feno.