terça-feira, outubro 27, 2009

Achei

Perdi minha poesia
cadê? não consigo achar
aquela que nem dá tempo de escrever que já começo logo a pensar no que vem além
não controlo em reler
poesia não é assim
não pra mim
vai do coração pro sangue pra mão
não passa pela cabeça
não é limitada ao caderno
escorre pela mesa
lambuza minha mão
gruda no vão da minha unha
me liberta
me aprisiona
me aprisiona e então me liberta
processo de desavesso da sensação
não posso perder a emoção
poesia é descontrole
suor, transbordação
poesia é momento, não é alento
não se escreve com o gesto lento
nem a letra em boa condição
pra ler meu original tenho que forçar a visão
meu verso não é difícil
é precipício
é meu próprio hospício
é minha alma
se é que existe alma, essa é a minha
assim nunca estou sozinha
eu, eu mesma, minha poesia, minhas unhas sujas, minha mão melecada, minha alma lavada, minha cara de perplexa arregalada, minha descrença no mundo, em tudo, minha crença no mundo, em tudo
desconfio que nem tenho nada a dizer
cada um que viva o que tem que viver
escrevo até a exaustão
não tenho controle das palavras da minha mão
elas pulam no papel
dançam uma dança de celebração
estamos de volta!
estamos livres!
essa é a minha reviravolta
não sou linear
sou como sonhar
sem início, meio, fim
sou filme do david lynch
sou música de bandolim
sou amiga da confusão
aceito minha condição: sou assim
ninguém me salva, só a minha flauta
e aquele cara que não lembro o que escreveu pra mim
só salva o outro quem se salva
o mundo é justo
a cara é limpa
o mistério é... quando me acaba a tinta?

quarta-feira, outubro 07, 2009

Juízo

Juízo. Seus cisos cutucavam o fundo de sua gengiva. As contas a pagar, final de mês, pilhas de louça suja.
Quem sabe um filho.
Quem sabe um livro.
Quem sabe fugir de mochila nas costas.
Não.
Aquela hora, a única que ela sabia lhe pertencer, o agora, era...da música.
Nada, nem casa, nem contas, nem dívidas, nem promessas, nem memórias, nem falta de memórias, nem projeções... Só uma flauta.
Era como ela queria levar a vida.
O juízo que cutucasse o fundo da gengiva, nem isso pararia o ar do pulmão saindo por chaves abertas ou fechadas do instrumento.
Era aquele o momento.